sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Mundaneidades

Repisado começo em manhã fria,
Despertar alvoraçado
Nos lençóis do repouso,
Acção tão descabida,
Plano planeado
Mas nunca executado,
Avidez e disputa
Por um controlo tão fugidio
Quanto ao tempo
Pelas horas assinalado.

Discórdia absurda
(Mas haveria dúvida?),
Frases de injúrias recheadas,
Incongruências em conjugações
Que só ferem por injustiça.

Reatar? Perdoar?
Há sempre um novo momento
Nas vidas descontroladas
Como comboios sem freios
Trilhando frágeis carris,
Pois cada gesto anterior
É sempre tardio e inútil
Em significado recebido.

O gelo do dia não refreia
Tamanha turbulência
E, à medida que se vai gastando,
Novas são as palavras que esbarram
Nas muralhas da incompreensão,
Como comunicação frustrada
De sucesso desprovida à nascença.

O relógio, eterno inimigo,
Aclama, por fim, o regresso
E todo o percurso é repetido
E evitado nos meandros da solução.
Afinal, é mais confortável julgar
De que tudo já está perdido
E que nenhum desses efeitos
Vale a sua conquista;

Nem carinho, nem amizade,
Nem compaixão, nem amor.

Fervilham, então,
Sob as luzes toscas,
Ecos de diálogos rotos
E tão futilmente construídos,
(Soando a interferências
Em aparelho audiovisual)
Ditos por marionetas com vida
Que se dirigem a lado nenhum.

Canções vagamente sentidas,
Oferendas empeçonhadas,
Dócil quietude falseada,
Cinismo tão recorrente
Que até se torna banal,
Expressões de intolerância
Cravadas nos muros
Da revolta irada.

Onde mora, então, a harmonia?

Somente – e eis a ironia –
Dentro de cada ser
Que concede o comando
De sua existência manipulada,
Apertada pelos braços
De um senso intolerante.

Mas isto, claro está,
Se ainda subsistir espaço,
No centro da vanidade,
Para a frágil centelha
Da autêntica serenidade.

(17/02/2010)


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