quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

E se eu vos dissesse?

Dirigir-me-ei, hoje, aos irmãos e irmãs assolados pelas dúvidas que cada ocorrência do Caminho lhes tem provocado. Mas não deixarei, contudo, de igualmente me referir aos demais: àqueles que em determinadas épocas provaram já o sabor de tais consequências e àqueles que ainda desconhecem tais palavras (ainda que, para eles, as vias da concretização já se aprontem para os receber).

E centro-me não só em vossas dúvidas, tão típicas das mentes que demandam, mas também em vossas dores, vossas desilusões, descrenças ou ilusões, espinhos cravados em corações que outrora amaram (porém, agora se fecham em seus ferimentos), suspiros de silêncio, frustrações consumadas. Mas… e se para além de afirmar que nelas me foco, declarar que também as compreendo? Bem sei, irmão céptico, que julgas teu calvário de único, que consideras que jamais alguém entenderá os sentimentos que somente tu pensas sentir… Não falo para teus ouvidos escutarem, nem para teus olhos entenderam ou tua boca reproduzir; falo para a tua Alma! De Alma para Alma, Humana, sofrida, espontânea e indagadora – assim me dirijo a todos vós. E se eu vos dissesse que, tal como vós, alguém já sofreu nas linhas do humano sofrimento e sentiu as dores que latejam agora em vossos âmagos? E se soubessem que já houve alguém que marejou o mesmo amargo lacrimejo e suportou o peso de seus espinhos? Sabem que alguém já sonhou e recolheu os quebrados pedaços de suas caras quimeras? Alguém que amou e sentiu sua dor, carregou-a e dela ergueu, com lágrimas de sangue, um orientador farol? Aqui reside a suprema prova da superação! E esse alguém que superou seu negrume, era alguém que também se iludira e questionara, apostara em tudo e em tudo perdera. Sim, queridos e nobres irmãos de caminho que honro e amo, há alguém, haverá sempre alguém, algures neste mundo amplo de Sol e de Chuva, que sentiu e sentirá ainda o fel que hoje vos foi dado a provar. Jamais estarão sós!

Alteiem-se e perscrutem as redondezas: verão o delinear de tantas histórias que partilham uma raiz comum às vossas. Poderão as palavras, os testemunhos e a partilha serem os filamentos do pano que vos ampara os lamentos? Claro! Estendam a mão a quem a ergue solicitamente e sentirão o fortificar das linhas que tecem a empatia humana. Haverá sempre algo ou alguém disposto a aliviar o peso de vosso fardo… E que tal pensamento, por hoje, vos conceda o mais divino dos confortos.


Pedro Belo Clara.



terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Anúncio

Estimados amigos, membros e visitantes deste blogue:

É com enorme satisfação que anuncio o lançamento da obra "Nova Era" - o meu segundo livro de Poesia -, no dia 24 de Fevereiro de 2012, pelas 18h00.

O referido evento terá lugar na Livraria Bulhosa, em Entrecampos (Lisboa).

Se vos for possível, compareçam! Juntos celebraremos a Poesia e o supremo Ideal que ela comporta!

Conto convosco.

Beijos e abraços,


Pedro Belo Clara.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A via do Guerreiro

A nossa própria história pessoal está recheada de evocações de outras histórias, aquelas que nos maravilharam na maviosidade da infância, que nos relataram em épocas complexas ou que simplesmente escutámos com o passar de um vento viajante. De entre todas elas, sobressai a imagem dos grandes cavaleiros, os paladinos da Justiça e da Verdade, intrépidos personagens que debandavam à conquista de ideais imensamente superiores à sua própria ideia de existência. E quantos de nós não sonharam, desejando ser como eles? Quantas irmãs caminhantes não suspiraram por eles, desejando estar em seus braços, almejando ter um lugar em seus corajosos corações? Mas o que de real reside nessas castas fantasias? Também nós nos munimos de “armamento”, seja ele a palavra, o acto ou o gesto de amor, e enfrentamos cada dia que de nós exige algo mais, algo crucial à conquista de um pessoal intento. Existem momentos que nos exigem passividade, outros actividade plena e concreta; a forma de actuação modela-se sempre à situação que se anuncia diante de nós. E, neste aspecto, constatamos precisamente a subtil inteligência do Caminho, fruto de sua Universal Consciência, eternamente sábia e omnipresente, uma vez que cada etapa somente nos é apresentada quando em nós dispomos dos melhores meios (adequados, entenda-se) para a resolver, mesmo que não a completemos (na prática ou na teoria; mas tal questão necessitaria de uma outra abordagem).

Iniciamos esta viagem com as devidas virtudes (e vicissitudes também, convém não olvidar), o Caminho apenas se apronta a testá-las, no auge de sua compaixão. Assim, elas se desenvolvem e se solidificam em nós, tornando-se uma parte indelével de quem somos (ou escolhemos ser). Posto tudo isto, o que ainda nos separa de tais cavaleiros de sonhos e aventuras? Cavalo e armadura, certamente… Pois as complexas desenvolturas, essas, assolam cada um de seus bravos filhos (em escalas diferentes, por ajustadas estarem a cada um deles). Por vezes, não nos achamos perante a dureza e a aspereza de um solitário rumo? Não nos empenhamos para derrotar o dragão e reclamar nosso tesouro, de forma tão natural como quem colhe aquilo que semeou? E em quantas ocasiões não nos é exigido permanecer para somente defendermos aquilo em que tanto acreditámos, mesmo que o nosso mais íntimo desejo seja o da partida? Até aquele que intentou ou decidiu fluir pela Vida e por suas ocorrências, em determinada altura mergulhou em tais eventos e circunstâncias! São essas as vias do Guerreiro que em nós tem a sua fímbria patente… E, em momentos assim, certo estou de que, se perscrutarmos com atenção, veremos sobressair de nossos fechados punhos o cabo de uma espada que em riste empunhamos, paralela ao escudo protector que orgulhosamente ostenta o padrão de nossas cores.


Pedro Belo Clara.


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O acto de questionar


Indagamos, nesta nossa existência que prolifera por um fértil terreno de experimentação e, por consequência, de aprendizagem, certos elementos, variantes que julgamos impossíveis, motivos ocultos, crenças até. Por mais que tal acto funcione como uma catalizador da dúvida (no menor dos efeitos, considere-se, abana os alicerces de uma estrutura), ele revela-se essencial a toda a “Alma viva”. A partir da escuridão plena irromperá a luz, sempre. No fundo, apresenta-se como um denominador comum a todos nós, aqueles que caminham, empreendem, flúem, assimilam, contemplam, tombam e se erguem ao longo de suas pessoais etapas. Revêem-se os leitores, meus irmãos de Caminho, nestes actos? Óptimo! Isto porque, se bem analisada e compreendida for a ocorrência, ao debruçarmo-nos sobre tais eventos encontraremos a razão de nossa total união, um foco de empatia entre semelhantes, o facto de que muito pouco nos separa, apesar de, dia após dia, continuarmos a optar pelo afastamento e esquecimento de questões deveras básicas, humanas até à medula que sustém a sua colocação.

No seio de tamanha demanda indagadora, podemos até nos afogar no turbilhão das questões soltas, perguntas por demais ansiosas, mas revela-se importante reter a principal virtude de tal acto, apesar de não em poucas ocasiões amaldiçoarmos essa arte (uma bênção com disfarce, é o que ela é). Se, em sinal de anuição, entrelaçarmos as mãos – as nossas e as que amparam a questão efervescente – iremos  compreender, testemunhar a revelação de algo maior e, com isso, crescer – não só como indivíduos, mas também como luz cintilante que todos somos. Mas, novamente o sublinho (como já o fiz em publicações anteriores), cada um encontrará as vias próprias que o guiarão até ao seu próprio coração, ao seu âmago mais íntimo e profundo; por nós nos perderemos e por nós nos encontraremos, conquistadores finalmente conquistados no silêncio dos instantes. Mesmo assim, quando passamos a ponte e dessa margem perscrutamos o que na outra sobejou, sentir-nos-emos soltos e límpidos, desapossados de qualquer peso incómodo. E, aí, será curioso constatar que as respostas alcançadas tinham, afinal, o delicioso som de nossas próprias palavras.


Pedro Belo Clara.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Os Amantes

Por vezes, ao sermos irremediavelmente afectados pelas agressões de uma etapa de negrume, dor e provação, certas crenças tendem a reluzir, frágeis, como que se aprontassem a abandonar nosso carácter, outrora firme. E em quantas ocasiões, mirando um confuso e instável mundo de solidão e orgulho, não duvidámos já da beleza do Amor e de seus benefícios? No fundo, olvidamos a flor que ele é, um exemplar casto e dócil que brota de um solo rude. Mas… quem deseja acreditar em rosas no deserto? Aquele que pressente e sabe que a sede logo se sacia assim que a fonte seja encontrada. E isto apresenta-se como uma assente linha de condução. Por isso, aos irmãos que hoje duvidaram das artes de um Amor simples, autêntico e redentor (e também àqueles que num amanhã próximo sentirão o mesmo fenómeno), eis uma breve história:

Desperta o sol na terra de todos os sonhos, por entre os devaneios de um céu a clarear, e logo é saudado pelo glorioso chilrear dos pássaros, quais aves do paraíso. Assim se inicia um novo dia. As primeiras brisas ainda são quentes, como se se quisessem tornar uma forte e vívida evocação de um Estio prestes a consumir-se, e, por entre sobejos de suspiros e belas magias, dois olhares despertam e encontram-se a sorrir. Liberta-se um beijo apaixonado, após o lento tactear das fronteiras que se definem diante de cada olhar, e dois indolentes corpos erguem-se, encarando o esplendor que os rodeia e a magnificência de um horizonte azul. Refrescam-se, então, na fonte de todas as paixões, dois rostos jovens e felizes aprontando-se para os eventos de um aguardado provir, mas sem ocultar as marcas das vitórias e das derrotas de um tempo, aquelas que fizeram deles aquilo que são. Agora, cada dia é uma bênção que sobre eles recai como chuva divina, e a eternidade pertence-lhes. Como sempre fazem em cada dia, juntos caminham na sua praia de cristal até esse porto de chegada da Vida, onde as ondas acariciam a fina areia e moldam as rochas de um pontão. E, ao caminharem, é como que se as suas sombras se unissem, pois em perenes momentos desfrutam de suas existências tão próprias e tão comuns.
Ele é um sonhador, um eterno cavaleiro de uma mística demanda, um marinheiro que navega ao sabor das brisas frescas em busca de um mar para além da saudade. Ama alguém que o entende até às profundezas de sua alma e que sempre consegue apartar de seu peito uma dor que, por vezes, sente. Ela, por sua vez, é a princesa de um castelo no vale das paixões, uma verdadeira Rainha que ama um Rei nobre, sabendo que em seu ombro encontrará sempre repouso e abrigo. São dois amantes que partilham um rumo e que juntos suportam a dureza de alguns caminhos, vogando nas esperanças de uma existência. Perdem-se e encontram-se no imaginário; amam-se no real. E, no final de cada tarde, admiram o pôr-do-sol, de entrelaçadas mãos escutando o silêncio de seus plácidos corações, como se fosse a prima vez que os estivessem a escutar. E é nesses ambiente de paz, nessas desenvolturas infinitas, que o vento lhes traz fantásticos aromas e sopros suaves que refrescam e aconchegam aquela praia de cristal. Os cabelos dos amantes, acariciados por essa aragem, descobrem os sempre jovens rostos, e um leve aroma a maresia paira no ar. Seus corpos, ainda trazendo pequenas recordações da fina areia, entregam-se à imensidão e unem-se em momentos de terno amor, paixão e desejo. Novas sensações são descobertas, assim como fraquezas – mas isso é algo que apenas os faz amar ainda mais. Então, são livres; livres de um mundo cansado mas que ainda sorri, livres da dureza material, livres de toda a imposição decretada por vontades que não a suas… E voam por prados esplendorosos, visitam oníricos reinos, respiram o cândido perfume que os envolve como um abraço ternurento.
Por fim, por entre sonhos de amor, repousam finalmente no seu leito de pétalas de rosa. Ela adormece e sonha com o seu Rei; ele, ainda acordado, é embalado pela madrugada, enquanto admira cada traço do rosto daquela mulher que, silenciosamente, a seu lado se permite banhar pela luz do luar. Por muitos que sejam os dias que juntos partilhem, ele sabe que, em algum momento, nascerá o dia que marcará a sua separação, o instante em que a sua viagem a dois será temporariamente interrompida. No entanto, os amantes que confiam no Amor, conhecem as estações e a natural sucessão de todas as coisas; sabem que em cada nova vida que se irá iniciar, dar-se-á o reencontro anónimo (se tal for fruto das supremas realizações de um Bem Invicto). E, mesmo que um deles se atrase no caminho intemporal, o outro ficará sempre à sua espera, na esquina mais próxima ansiando pela chegada do outro pedaço de si mesmo. Cada reencontro será o relembrar de muitas vidas, de muitos papéis representados e cumpridos. Assim, os amantes tornar-se-ão eternos como as lendas que imortalizaram o seu amor, pois descobrirão que, afinal, sempre viveram no coração um do outro e que nunca estiveram sós, por mais persistente que tivesse sido essa ideia ou sensação. Mas esse é um segredo que a noite guarda; é ela a mensageira das palavras de alento que todo amante confuso e cansado de esperar recebe de sua outra metade: «Meu amor, aguarda, pois estou quase a chegar…». E, como afirmam os Poetas, «coisas boas sempre sucedem a quem nelas se dignar a crer, a quem por elas esperar».

Assim, considero, nada mais há a dizer, apenas uma ideia a reforçar: acredita.


Pedro Belo Clara.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Aquilo que verdadeiramente importa

Agora que se marcou o término (ou quase) das principais festas por muitos de nós celebradas, propunha, como se pegássemos numa ideia que nos surge e que implora a sua maturação, o início de breves reflexões. E isto porque, não em poucas ocasiões, caminhamos os trilhos da existência sem profundamente observarmos o que adorna as suas margens. A Vida não é somente um Caminho, mas um conjunto de condimentos que compõem a Unidade. Um deles é, por exemplo, a contemplação, essa arte que tanto nos propicia a reflexão perspicaz, contribuinte de uma lapidação de carácter ou limpeza de Alma. Mas, obviamente, toda a arte só melhor serve aquele que com ela mais se identifica – daí a constante importância de cada um descobrir, por si só, os caminhos de seu coração.

Evocando, então, todos os momentos que recentemente vivênciámos e partilhámos, o que poderemos nós dizer sobre eles? Foram experimentados em seu esplendor? Cada emoção e sentimento foi saboreado da melhor maneira que nos assiste? Verdadeiramente celebrados junto daqueles que nos rodearam? E, mesmo que a solidão tenha sido a nossa única companhia, daí eclodiu algo de revelador? Algo despoletador de uma necessária mudança ou rompimento? Somente cada um de vós, irmãos caminhantes que me lêem, poderá responder de forma sincera. Em todo o caso, recordem que cada etapa de nossas existências fornece o entendimento ou a lição necessária à nossa desenvoltura, como seres que somos. Jamais se arrastem pelo hipotético erro ou falha por vós não aceite – uma nova manhã virá e tudo poderá ser recomeçado, até que consolidado esteja esse novo meio de agir, pensar ou ser. Por isso, apenas poderei desejar que o Amor tenha sido o supremo sentimento que vos habitou. Caso contrário, que cada um de vós possua em si (ou encontre em si) a necessária força para concretizar vossos pessoais processos: que se abram ao sentir exterior, que sintam a sabedoria para decidir e a humildade para aceitar acontecimentos de um porvir, pouco desejáveis talvez, mas deveras essenciais ao vosso maior propósito.

E, para aqueles que consideram o Amor algo banal, algo quase extinto nos duros caminhos rotineiros, digo: olhem para vossos corações e escutem o vosso primordial silêncio. O que conseguem entender? O que conseguem sentir muito para além das negras cortinas com que vos adornaram? No fundo, há algo em vós que, muito rouco, exíguo e esmaecido, ainda vos faz acreditar, ainda se apronta para enfrentar todas as etapas e daí recolher a merecida colheita. E isto porque diversos actos, valores ou pensamentos, não poderão ser simplesmente olvidados – eles são aquilo que verdadeiramente importa. Por isso, dirijam-se a todos aqueles que foram agraciados com a bênção que só os filhos concedem, e perguntai: o que realmente deve importar nas vidas de vossas crianças? Rodeados por um mundo que implora por consumo rápido, exacerbado e indiferente, serão os presentes caros a ocupar o topo dessa tabela? Aqueles brinquedos que, mal sejam por eles usados, logo são colocados de parte, por célere se fatigar a mão que os manobra? Ou o verdadeiro e autêntico Amor de seus progenitores, tão puro e incondicional? Os pais que se lamentam por não disporem de materiais meios para conceder a seus filhos tão belos presentes, porque olvidam o maior presente de todos? Aquele que já possuem em si e que de forma tão livre e autêntica poderão conceder. É claro que, em geral, as crianças comparam-se aos seus semelhantes, desejosas por pertencerem a certos grupos e por possuírem aquilo que os demais também possuem, sob o risco de se sentirem (ou serem) marginalizadas, excluídas. Mas… será isso menos importante que o Amor? Ou, até mesmo, que os demais valores de carácter humano? Tudo depende de cada indivíduo, é claro; por vezes, as prioridades poderão estar invertidas, embora só assim melhor sirvam seus senhores. Mesmo assim, porque não questiona a criança (ou seus pais a fazem questionar) se aquele que tudo possui, desfruta de um verdadeiro Amor em seu lar? Em quantas ocasiões isso não representa um disfarce do distanciamento ou do abandono?...

Que quem viva cómodo na matéria conceda aquilo que pode ofertar – quem muito possui, mais responsabilidade terá –,  mas que jamais olvide os factores primordiais, tão facilmente subjugados pelo peso dos dias actuais. Talvez, em suma, isso seja o único aspecto que sobressai: o não esquecimento daquilo que verdadeiramente importa em nossas vidas e que tão agilmente nos auxilia em momentos turbulentos, quando sólido se anuncia o sentimento; aquilo que todos possuímos e podemos desenvolver e partilhar, como o remanescente de uma farta colheita – o Amor, sempre nobre, casto e simples, fluido como as coisas belas e sábias, eterno redentor, eterno salvador.


Pedro Belo Clara.


domingo, 18 de dezembro de 2011

Diferenças


(Nota prévia: publico, munido de intenções natalícias, um antigo poema (ao invés dos habituais textos) que representa a era dos meus primeiros trabalhos, embora esteja aqui já devidamente corrigido e lapidado. O Natal é sempre motivo de reunião e festejo, mas porque não nos lembramos dos demais irmãos espalhados por este mundo? Assim, através de actos ou de sorrisos sinceros, o nosso amor estará, nesta quadra, com todos eles, com todos aqueles que vivem um "outro Natal").


Lá fora, a neve cai;
Lá dentro, risos ecoam pelos espaços
E o estridente tilintar dos copos de cristal
Faz-se escutar além da cómoda barreira.
A alegria começa. É noite de Natal.

Nessa casa de família abastada,
Bela, bem decorada e quente,
Onde pequenos toros ardem
Numa antiga e enobrecida lareira,
Há, numa janela, um curioso olhar
Que tenta romper o mate do vidro.
E o que vê? Uma mesa imensa,
Plena de apetitosas e requintadas iguarias!
Como ele gostaria que a sua vida vazia
Fosse assim, plena de cor e requinte…

Então, com aquela inconsciência
Que tão bem caracteriza uma criança,
Esboça um sorriso envergonhado
E inspira um pouco de esperança.
Imagina-se logo naquele lugar:
Aconchegadamente feliz e amado;
Imagina que faz parte daquela família
E que ajuda a distribuir os presentes.
Sonha, apenas sonha, que desfruta
Da melhor noite da sua ainda curta vida.

Seus olhos tremeluzem de alegria,
Alimentados por uma felicidade
Que dificilmente voltará a conhecer,
Mas, de súbito, sua presença é notada.
Uma mulher empertigada e dominadora,
Com um busto de estátua, carregado,
Dirige-se àquela janela, vitral sonhado.
O menino bate no vidro e apenas pede pão,
Mas, numa frieza mais gélida que a noite,
Só recebe em gritos um indiferente «Não!».
Cerra-se a cortina, o sorriso do menino desvanece,
O seu mundo sonhado esvai-se pelas grutas da dor.

Como era injusta aquela mulher…
Que sabe ela acerca da verdade lá de fora?
Assim, dissipou-se uma linda ilusão
Num dia que podia ser de Primavera…
E, para quem apenas se serve de velhos trapos,
Um frio cortante e gélido sopra agora como
Um eterno castigo, por demais incessante.

Fecha seus olhos e pensa se aquele velho e bom senhor
Realmente existe. Se sim, porque o abandonou?
Ter-se-á esquecido dele? Ou será que o deixou?
Para quê tudo isto? Para quê passar por tanto mal?
Adormece e uma lágrima corre por seu rosto.
Querendo ou não, esta foi a sua noite de Natal.

(Pedro BC).