quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Álbum de fotografias

Numa chuvosa tarde de Domingo, escutando o viril e distante ribombar dos trovões, no seio do meu mais aconchegante conforto, passei o olhar por um velho álbum de fotografias que, evidenciando-se, me despertou a atenção. Parece que, em dias assim, o apelo à evocação é sempre mais forte… Peguei nele e, atravessando todos os passados tempos que nele ressurgiam, demorei-me pelos efeitos que o próprio contar dos anos proporciona a todos nós. Observava rostos que já conheci e que ainda conheço e outros que a custo ia reconhecendo (ah, as durezas do Caminho e seus efeitos!...), além daqueles cujas existências nunca cruzaram a minha – apenas a sua promessa de vida consumida pairou diante de mim. E, assim, ignorando os minutos e as horas, ia analisando cada recorte dos rostos lá captados, o brilho de cada olhar, a sinceridade de cada sorriso. Curiosa é a arte fotográfica… Ou será que me devo referir aos ardis da fotografia? Seja como for, é magnífica (e ao mesmo tempo estranha) a forma como um momento, tão efémero para nossa percepção, pode ser assim captado, como frágil e submissa presa, imortalizado em perecível folha. É como se um suspiro pudesse ser sustido! Como tais objectos são, em sua verdade, os emoldurados quadros das memórias… Manhãs de ouro, tardes inesquecíveis, noites perfeitas… Quantas vezes, no seio de nossa tola ilusão, não desejámos já que fossem eternas? Mas, através de suas graças, essas horas transmutaram-se num hoje infinito. E não se deteriorassem tão celeremente as cores da mente, não amarelecessem as folhas de nossas evocações com o passar das ímpias estações e teríamos sempre em nós o esplendor do que já foi vivido… Mas porque digo que não o temos? Essa é a mais espontânea das considerações que nos assoma, quando confrontados com esse aspecto. Afinal, quantos de nós não se julgam já desprovidos de um esplendor outrora desfrutado?

É claro que nossas escolhas irão moldar as consequências de um amanhã distante…  Tudo poderá nos parecer perdido, desvanecido ou renegado, tudo aquilo que em tempos de outrora brilhou em nossa existência. Mas, se assim for, se nos virmos reflectidos na oxidação de uma época consumida, teremos sempre em nossas mãos a oportunidade de alterar a rota defina (é sempre importante relembrar este aspecto). No entanto, perante a imagem desfalecida, veremos também que, afinal, perpétuo era o brilho do sentimento remanescente, o fruto dessa tal vivência tão querida e desfrutada ao extremo. Eu revia, naqueles pedaços de época, companheiros de uma vida de caminho sorrindo como se o mundo fosse um iluminado palco artístico ou um rio desprovido de desilusões ou tristezas, fosse qual fosse o desígnio do porvir. E, ao deles me recordar, saboreei os seus perfumes de terra distante, pois fi-los de novo viver em mim. Estivessem eles onde estivessem, não os considerei assim tão diferentes, tão gastos ou consumidos pela avidez de uma vida dissimulada - avivei a sua centelha, a sua verdadeira essência. Oh! O que dez anos podem fazer a um Homem? Mudarão realmente alguém? Ou todos estamos imunes às investidas de uma impiedosa contagem? Como em todos os demais assunto, depende do ponto de vista adoptado. Além desses companheiros, observei igualmente aqueles que de mim cuidaram, quando retornei às planícies deste mundo, inspirando as pétalas de sua juventude. E eu? Era somente uma criança que corria na inocência de um tempo, em silêncio aprontando-me para o caminho que então se esboçava. «Oh!...», dirão muitos de vós, «O que o cair das folhas de um velho calendário pode fazer a um Homem?!...». Nada, na verdade. Ultrapassamos as etapas que o Caminho nos cria em nome de nossa evolução, suportamos as marcas de cada queda, suspiramos e duvidamos em muitas curvas tenebrosas, mas, se a Amargura não nos tornar amargos, nunca em nossa essência mudaremos; apenas ostentaremos os indícios de nossa aprendizagem. E isto se, ao longo de todo o percurso, por mais incessante que seja o palpitar da Dúvida, jamais olvidemos quem, no fundo, somos. Essa constatação, depois de feita, nunca deverá ser renegada; é a nossa identidade, as linhas de nossa personagem material salpicadas pela personalidade cósmica que somos. Há e haverá sempre, em nosso rumo, Sol, Chuva, Tempestade e Bonança – por todos eles realizaremos nossa travessia, assim com o fizemos no passado, seguros à verdade que nos compõe. Poder-se-ão passar dez, vinte, trinta ou cinquenta anos, não importa… O que representa o tempo para as Consciências Universais que detemos? Um mero grão azul num extenso areal dourado…

Fechei o álbum e murmurei: «No Passado reside a lembrança, no Futuro a nossa esperança; mas, no Presente, sublime e imbatível vibra a Existência». E esse é o segredo do Infinito que sempre almejamos tocar. Colectamos tantas flores ao longo de cada passada e várias são aquelas que nos ferem com seus espinhos… Mas os corações falarão sempre a mesma linguagem. A Vida é uma caminhada ganha, jamais perdida.


Pedro Belo Clara.


2 comentários:

  1. Muito belo seu texto. Vc é muito profundo e reflexivo. Seus textos provam que vc conhece muito bem as emoções e sentimentos humanos e seus mecanismos. As armadilhas que eles nos aprontam de vez em quando. Parabens, Pedro Belo Clara. Sua literatura clarividencia nossa alma. Abrçs!!!

    ResponderEliminar
  2. Márcio, caro amigo:

    É deveras gratificante, para mim, ler as palavras que me endereçou tão gentil e sinceramente. Eu, que escrevo para meus leitores, ao saber o impacto que as ideias proporcionam, fico sempre com a sensação de dever cumprido. Bem haja por isso.

    Abraço.

    ResponderEliminar

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.